terça-feira, 20 de novembro de 2018

Pescar?



Estacionado de ré em 45 graus, o carro popular exibia o adesivo afixado no vidro traseiro que trazia a seguinte sugestão:

“Tá nervoso? Vá pescar!”

Mesmo caminhando rapidamente, meus olhos não tiveram como não ler a frase que deflagrou um confronto dentro de mim.

Depois da morte e ressurreição de Jesus, de volta à Galileia, na companhia de alguns amigos, Pedro resolveu ir pescar. Desanimado consigo mesmo, após dias tão intensos, sua alma pediu por uma pescaria. Alguma coisa que pudesse aliviar a dor, que o fizesse esquecer a decepção das últimas horas – quem sabe algo que tivesse o poder de colocá-lo novamente nos trilhos da vida, depois do descarrilamento pelo qual passara.

Existem episódios que gostaríamos de apagar da nossa mente. Situações que, num primeiro olhar, ao nosso juízo, pensamos que o descanso só virá se forem deletadas da nossa alma. Quantas coisas gostaríamos de esquecer para nunca mais lembrar. Entretanto, ao entrarmos na rota da distração, mesmo que o paliativo nos traga o temporário alívio, a realidade permanece.

E as noites passam, o resultado não vem, o esforço é vão, e a solução não chega. Até que, lá na praia, alguém grita:

– “Filhos, tendes aí alguma coisa para comer?”

Então nos damos conta que a trajetória que escolhemos foi inócua, que a distração na qual buscávamos algum significado, fora incapaz de produzir o que queríamos. Assim, só nos resta assentarmos junto à fogueira que o Senhor preparou, convite à comunhão que nos trata e restaura. Cura verdadeira, bem melhor que pescaria.


Laerte Cardoso

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