quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Fé e posição (1)



“Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidon. E eis que uma mulher cananeia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada. Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: despede-a, pois vem clamando atrás de nós. Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me! Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E desde aquele momento sua filha ficou sã”. (Mt 15: 21-28)


Esses dias difíceis tem servido como um terreno muito produtivo para o aparecimento de um determinado tipo de fé, que surge em virtude do desespero, mas, conquanto seja fé, não leva aquele que crê a tomar uma posição no Reino de Deus.
O texto, de Mateus 15, nos conta a história de uma mulher siro-fenícia que foi atrás de Jesus quando este passava pelos lados de Tiro e Sidom. O problema que ela estava enfrentando era realmente muito sério. Sua filha estava horrivelmente endemoninhada. Marcos 7: 25, que também relata este episódio, diz que “sua filhinha estava possuída de um espírito imundo”. Imaginem a aflição dessa mãe em ver sua filha (uma criança) endemoninhada e não poder fazer nada.
Contudo, em meio ao desespero, surge a esperança. Marcos 7:25 também diz que ela “ouvindo a respeito dele” foi ao seu encontro. Interessante. Ainda que ela não tivesse visto Jesus curar ninguém, nem realizar milagre algum, a fé nasce em seu coração e a certeza de que aquele homem poderia libertar a sua filhinha a domina completamente. Uma fé que vem via fama, via informação de terceiros. Ela não viu, ela ouviu, e, por ouvir, passou a crer.
O ser humano, em certas situações, principalmente quando se esgotam os recursos naturais, abre-se para o sobrenatural com tamanha disposição que a distância entre o bem e o mal não existe mais para ele. Muitas pessoas, na hora do desespero, da mesma forma como entram em uma igreja evangélica, também entram em um centro espírita, consultam cartomantes, fazem promessas, e acabam indo a qualquer lugar que ofereça a mínima perspectiva de mudança. O que importa para elas é que os seus problemas sejam solucionados.
Ao saber que Jesus estava ali, ela começa a clamar:
“Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada”.
Mesmo diante deste apelo comovente, Jesus não responde absolutamente nada. O silêncio do Mestre incomoda os discípulos que passam a interceder por ela. Alguns comentaristas bíblicos dizem que por Jesus estar fora da Palestina, e com o objetivo específico de estar a sós com os seus discípulos, tenha sido essa a razão principal que os motivou a pedirem que Ele a despedisse, evitando, assim, que aquele acontecimento despertasse a atenção de outras pessoas. Porém, a resposta de Jesus, alegando que “não fora enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, demonstra que os discípulos estavam pedindo em favor dela, ou, no mínimo, pedindo que Ele lhe desse atenção para fazê-la parar de gritar.
O desejo profundo de ver aquela situação resolvida faz com que ela chegue diante de Jesus, o adore e, ao mesmo tempo, lhe peça: “Senhor, socorre-me”. A resposta de Jesus a esse pedido é simplesmente inesperada. Não existe nos evangelhos nenhuma recusa de Jesus a pedidos semelhantes. Todos os que foram até Ele, foram atendidos sem nenhuma argumentação. Esse é o único relato das Escrituras onde ventila-se a possibilidade de um pedido, feito a Ele, não ser atendido. Ao dizer que “não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”, Jesus não está se negando a atender o pedido da mulher, mas está deixando bem claro que aquela não era a hora dos gentios, o que não deixa de ser um obstáculo. O termo cachorrinho, no grego kynaria, significa animal caseiro de estimação e não os cachorros de rua, o que mostra não estar Ele zombando da mulher por não ser ela judia. Além disso, o texto, em Marcos 7: 27, diz “deixem primeiro que se fartem os filhos” o que nos leva a crer que após os filhos (os israelitas) se fartarem, os cachorrinhos (os gentios) também poderiam comer.
Apesar deste obstáculo, ela não desiste. Mesmo diante da afirmação de Jesus, “primeiro os filhos”, a mulher siro-fenícia replica: “Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos”. A aflição é tanta, a dor é tanta, o desespero é tanto, que não faz mal comer migalhas. Qualquer migalhazinha que cair da mesa já está bom. Fico pensando quantos de nós chegam às igrejas implorando por uma migalha. A fome é tanta que qualquer sobra já resolve o problema. A sede é tão grande que qualquer gota representa um oásis.
O escritor de Hebreus afirma que sem fé é impossível agradar a Deus. Certamente, a fé da mulher siro-fenícia agradou a Jesus, pois, no versículo 28, Ele diz: “Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres”. Em seguida, o texto nos conta que daquele momento em diante a menina ficou sã.
Sem sombra de dúvida, a persistência dessa mulher é um grande exemplo para todos nós. O seu clamor pedindo compaixão, a certeza de que Jesus era poderoso para resolver aquela situação, a sua humildade em dizer que os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa, tudo isso nos leva a admirar a sua fé. Crer que Jesus é poderoso para realizar milagres, para mudar situações, solucionar problemas, pode ser bom e posso até dizer que não há nada de errado em crer assim. Todavia, a proposta de Jesus, em que se creia nele, traz implicações muito maiores. Precisamos considerar um outro lado ao qual este texto nos remete.



Laerte Cardoso

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